O GRUPO MAGNIFICAT

Nossa história começa a partir de um grupo de jovens, que já existia bem antes do surgimento da Comunidade, chamado Grupo Magnificat, no qual o nosso Fundador fez sua primeira experiência com Deus, aos 14 anos. Dois anos depois, em 1997, Andrei Alves aos 16 anos, assume a coordenação geral do referido grupo, que passava por uma profunda crise após a saída do coordenador. Esta crise provocou a dispersão no grupo: dos 100 jovens, em média, que participavam, restou apenas o ministério de música. Andrei foi eleito coordenador e começou, então, um processo de reestruturação do grupo a partir do ministério de música, e sua única inspiração era fazer uma hora de adoração antes e depois dos ensaios. Aos poucos ia se revelando nossa missão e caminho espiritual: a evangelização tendo a música como via privilegiada e a adoração ao Santíssimo Sacramento.

A PRIMEIRA CASA E O ABANDONO

Após alguns meses, o grupo volta a crescer significativamente, e no início do ano de 1998 começa a evangelizar no bairro de Camboinha, na cidade de Cabedelo, tendo como local de encontro uma casa que foi cedida para as reuniões. Neste mesmo ano, o grupo passou por outra crise: os jovens engajados em algumas equipes de serviço não estavam dispostos a assumir compromissos mais sérios com a evangelização e, ao serem chamados a um ardor e radicalidade maiores no seguimento a Jesus, decidiram sair do grupo, deixando Andrei literalmente sozinho. Andrei precisava agora organizar todo o espaço celebrativo do grupo de oração; precisava ainda ser a pessoa que acolhia aqueles que vinham participar do grupo de oração, ser o ministério de música de apenas um integrante, o pregador de todas as noites, e no final, organizar tudo de novo e devolver o que havia tomado emprestado. Diante de tal situação, Andrei passa a ter vários pensamentos acerca de desistir dessa missão, pelo menos do modo “radical” como ansiava seu coração. Mas em cada fim de semana que chegava, ele via o grupo de oração cada vez mais cheio de participantes, e por isso não conseguia desistir, não tinha coragem de abandonar aquelas pessoas que vinham com tanta fé e sede de Deus. Ele se virava como podia: improvisando pedestal para o microfone com um cabo de vassoura pregado no caibro da casa, carregando, com um carrinho de mão, cadeiras emprestadas de um bar acerca de 400 metros da casa. Teve que fazer isso tudo sozinho durante quatro longos meses. Foi o momento em que um pequeno grupo de jovens lhe ofereceu ajuda. Surgia então um novo tempo de graça, fidelidade, amizade e sede de Deus. Com o tempo, alguns que fizeram parte do grupo anteriormente, decidiram voltar e pediram perdão por tê-lo abandonado naquela época.

O ENCONTRO COM O MISTÉRIO CRISTOLÓGICO

O desejo de ser mais e mais de Deus abrasou o coração de Andrei, que passou a ter uma experiência particular ao se colocar em adorações diante de Jesus Eucarístico: ele se ajoelhava e sempre era conduzido interiormente a sentir-se reclinado sobre o peito de Jesus, escutando as batidas do Seu Sagrado Coração. Essa experiência era ininterrupta, insistente e progressiva, o que inquietava profundamente o coração de Andrei por querer saber o que Deus queria dele com tudo aquilo. Por volta de novembro de 2001, Andrei foi fazer um retiro pessoal de 18 dias no então “Noviciado” da Comunidade Católica Shalom, e lá ele teve experiências maravilhosas com Deus e com os irmãos. Em um dos dias do retiro, partilhando com Juliana, noviça da Shalom, ele falava que já fazia vários meses que ao entrar em oração sentia-se como que reclinado sobre o peito de Jesus, em profundo acolhimento. Juliana, encantada com a partilha de Andrei, traz sua bíblia e mostra a ele um ícone que ela tinha colado na contracapa: era o “discípulo amado” reclinado sobre o peito de Jesus, da mesma forma que fora descrito por ele. Foi como que uma EXPLOSÃO! Era o encontro de Andrei com o mistério de Cristo que ele era chamado a viver. Emocionado, ele só dizia: “É isso! É isso! É isso!” No fim do tempo de retiro, Andrei recebe uma carta da noviça Juliana, na qual além de um texto lindo sobre o sentimento que ela tinha de que ele deveria ser o discípulo amado de Jesus, ela arrancou e colocou a página de sua Bíblia onde estava colado o ícone que havia mostrado para Andrei. Ele trouxe para casa o ícone que tinha ganhado e com ele também este “novo” que brotava, se revelava e passava a ser clarificado em seu coração.

O FRATERNO AMOR E PALAVRA FUNDANTE

Neste mesmo ano, quando os componentes do “Grupo Magnificat” se reuniram para um retiro, Andrei e Eduardo Nogueira, compuseram uma canção que brotava em seus corações: a música se chamava Fraterno Amor. Em janeiro de 2002, em oração, pediram a Deus que iluminasse os caminhos de discernimento do então Grupo Magnificat, no tocante à sua missão e a um impulso fortíssimo, que sentia Andrei, quanto a dar sua vida com maior radicalidade. A primeira coisa que sentiram é que já não eram mais o grupo Magnificat, havia um novo, um novo que estava descrito naquela música acima citada. Assim veio um novo nome: passamos a nos chamar Fraterno Amor, e não mais como grupo, agora se chamava Missão Fraterno Amor. Era uma nova história que Deus queria construir. Tudo isto aconteceu em maio de 2002 quando alugamos uma casa em vista da necessidade iminente de ter um espaço para realizar os encontros de oração. Em uma vigília realizada na nova casa da Missão, o Senhor falara claramente no coração de Andrei, que agora já olhávamos como o fundador, a frase: “leia Oséias 11, 4”! Andrei nunca tinha lido o livro de Oséias e ficou temeroso de ser algo de sua cabeça, mas o Senhor insistia. Então Andrei procurou a primeira bíblia que estava em sua frente, era a única edição da CNBB presente na sala. QUE PROVIDÊNCIA! A Edição da CNBB é a única na qual este versículo do livro de Oséias está escrito da seguinte forma: “Eu os lacei com laços de amizade, eu os amarrei com cordas de amor”. A alegria não se continha no peito do Fundador; ele ‘bradava palavras de amor’ na sala, louvando ao Senhor pela palavra que, até então para ele, confirmava o nome, mas que em breve seria entendida como a PALAVRA FUNDANTE de uma nova fundação.

O CONGRESSO EM ASSIS

Em novembro do mesmo ano, em um momento de oração a sós com Deus na praia, Andrei lançou um desafio:

“Senhor, se me queres por inteiro, como um Consagrado Teu, numa entrega de vida total nesse novo modo de vida que são essas ‘comunidades novas’, dê um jeito de eu ir para o I Congresso Internacional das Novas Comunidades”, em Assis, na Itália, pois eu preciso entender o que é isso que estamos vivendo, e como não tenho nenhuma condição material de ir, se eu for, terei certeza de que é uma resposta Tua de que devo ser um consagrado nesse modelo de vida. Mas, Senhor, se não me enviares também entenderei que não me queres neste modo de vida”.

Cinco dias antes do Congresso, Andrei foi fazer uma pregação. Nesta pregação, um casal que se sentiu imensamente tocado pelas palavras ali proclamadas, deu a ele de presente o pacote completo da viagem. Andrei não havia falado nada com eles, mas o casal escutou sua família comentando durante o tempo em que o esperavam para leva-lo para a ‘bendita’ pregação. Era a confirmação que o fundador tinha pedido a Deus. Assim começava a resposta do Senhor sobre sermos Comunidade. Na viagem para o congresso, Andrei teve um forte contato com Dom Alberto Taveira, até então Arcebispo de Palmas, ainda no aeroporto de Recife, que afirmou sentir algo muito especial da parte de Deus quando falou com Andrei: “cuide desse menino porque há algo especial nele!”, disse o Dom Alberto referindo-se ao que Deus havia colocado em seu coração. Dom Alberto chegou a afirmar que era algo grande que o Senhor tinha para fazer através dele: “Andrei, quando Deus chama alguém muito cedo é porque Ele não quer perder tempo com essa pessoa, e grandes coisas através dela Ele quer realizar”. No mesmo instante, o Arcebispo se propõe a acompanhar os discernimentos e a vida de Andrei e da Missão, e lhe revela o segredo essencial do Carisma Fraterno Amor: O PACTO. Dom Alberto toma as mãos de Andrei e lhe diz que “a Comunidade Fraterno Amor só nascerá se entre vocês for feito um pacto de vida que farei agora com você: Andrei, eu me comprometo a morrer por você!”. Andrei, constrangido por tanto amor derramado sobre ele, repete aquelas palavras para Dom Alberto e também faz a sua parte no pacto. Deus começa a revelá-lo, mais concretamente, como Fundador. Alguns anos depois, o Monsenhor Aloísio Catão insistiu muito para que a Comunidade meditasse o capítulo 15 do evangelho de São João; mas só depois de muita insistência do Mons., a Comunidade começou a meditá-lo e descobriu no versículo 13 uma palavra que trazia luz ao Pacto proposto pode Dom Alberto. Aconteceu ainda neste Congresso, um fato extraordinário do amor de Deus em confirmar nossa vocação. Foi num jantar, quando o, até então desconhecido, Padre João Rodrigues se apresentou a Andrei e perguntou se poderia sentar na mesma mesa que ele para jantar. Andrei observou que por alguns minutos o padre não tocou na comida, e achou estranho. Logo em seguida, o padre interrompe o silêncio e diz: “não vim aqui jantar, filho, vim para dar-lhe um recado de Nossa Senhora”. Andrei pensou que o padre estava doido, pois não acreditou que Nossa Senhora enviaria um recado para ele. Mas o padre prosseguiu: “Nossa Senhora me diz que deseja que você seja como João, o Discípulo Amado”. Nova explosão de amor abrasava o coração do neo fundador. Neste instante, todo o carisma se confirmava pela boca de um padre que nunca ouvira falar de nós. O detalhe lindo é que o padre de nome João, era um dos que confessaram a irmã Lúcia, vidente de Nossa Senhora de Fátima. Mais uma vez o Senhor dizia ao nosso fundador que era na experiência do Discípulo Amado que se escondia a nossa vocação.

O RETIRO FRANCISCANO

No final de semana seguinte ao término do Congresso, houve o I Retiro Franciscano, promovido internamente por nossa Missão, com o objetivo de partilhar tudo sobre o congresso e dar um novo impulso à obra. No Retiro, Andrei propôs a alguns Membros o compromisso de um SIM radical. Assim, aconteceu o primeiro compromisso de foro interno com os cinco primeiros integrantes, que receberam como sinal de pertença a Deus e a Missão, o “Tau em osso”, que a partir de então se tornou sinal externo dos marcados com a vocação Fraterno Amor. Esse era o impulso: Deus nos chamava a uma Vida Consagrada. Entretanto, Dom Marcelo, nosso amado Pai Espiritual, ainda não achava que era tempo de se chamar Comunidade, e nos orientou a continuarmos como missão.

A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA DO ELO DE VIDA

Em janeiro de 2003, iniciou-se uma experiência comunitária com dois elos: Vida e Aliança. Em fevereiro do mesmo ano, mudamos para outra casa no mesmo bairro (Camboinha). Esta nova casa nos deu um aspecto mais concreto do que seria uma Comunidade. Em maio, promovemos o I Retiro para Jovens na cidade de Cabedelo, e neste encontro abrimos inscrições para a I turma de Vocacionados da Missão. Mais de 30 jovens se inscreveram. Era tempo de se lançar em águas mais profundas. E de fato nos lançamos, literalmente. Tudo sempre foi muito difícil para nós, e neste ano aconteceu uma das maiores chuvas das últimas décadas em João Pessoa/Cabedelo e a nossa casa ficou completamente ilhada, a ponto do caminhão de mudança não conseguir entrar na rua. Era necessário mudar de casa. Saímos carregando nossas coisas numa jangadinha, que nosso vizinho tinha. Quase perdíamos a nossa máquina de lavar quando, em uma das viagens até o caminhão que nos esperava na BR, a jangada virou. Saímos daquela casa sem saber qual seria nosso futuro ou para onde iríamos. Então aquele casal que presenteou nosso fundador com a ida para o Congresso, conseguiu uma casa emprestada por um mês até que encontrássemos um novo lugar. A casa era como um castelinho à beira mar. Que mimo de Deus! Durante aquele mês estávamos tão bem acomodados que não queríamos mais sair dali.

A FUNDAÇÃO OFICIAL

Na noite do dia 20 de maio de 2003, Dom Marcelo Carvalheira, então bispo da nossa Arquidiocese, resolveu jantar em nosso castelinho emprestado. E durante todo jantar conversamos sobre o que tínhamos vivido desde o início do ano até aquele momento. Ao final do jantar Dom Marcelo nos olhou com toda a ternura que lhe era própria e disse: “chamem-se Comunidade. Agora vocês podem se chamar Comunidade!”. Que festa, que alegria e que mistério, pois humanamente não tínhamos nada para apresentar que justificasse sua decisão naquele momento. Era Deus quem falava. Assim, iniciamos a primeira turma de Discipulado (como era chamada a primeira fase formativa) e noviciado (como era chamada a segunda fase formativa). No mês de junho, se iniciou outra turma de vocacionados, em que mais 20 se inscreveram. Mas precisávamos nos mudar pois nosso tempo naquele castelo emprestado estava acabando. E através do Santo Terço rezado aos pés da Virgem num monumento bem próximo ao ‘castelinho’, achamos nossa nova casa e lá permanecemos por longo tempo. No dia 14 de agosto de 2003 se deu a 1º Profissão dos Compromissos Provisórios dos noviços da Comunidade. Foi uma grande festa para todos! Dom Marcelo ouviu pela boca de cada um deles que eles morreriam por ele e pelos seus irmãos. Foi um tempo de muito entusiasmo, e em poucos dias veio a festa que inaugurava a Capela de nossa casa, e também nos dava naquela data a licença para a permanência do Santíssimo Sacramento entre nós.

O PRIMEIRO TRÍDUO DO DISCÍPULO AMADO

A partir do ano de 2003, decidimos comemorar o aniversário da Comunidade nos dias 27, 28 e 29 de dezembro, com o evento que ganhou o nome de “Tríduo Joanino”, em honra ao Discípulo Amado, nosso baluarte, cuja festa é no dia 27 de dezembro. Estiveram presentes na ocasião da festa do Discípulo Amado, Dom Alberto Taveira, Dom Bernardino Marchió, Dom Marcelo Carvalheira e Mons. Catão. Essas presenças representavam um grande impulso do Senhor para nós!

UM NOVO VÔO

Em 2004, iniciou-se outra turma de vocacionados, com a entrada de mais 15 membros. A Comunidade ia crescendo em graça e número. Muitas coisas boas aconteceram, muitas revelações, através de adorações e orações comunitárias, e também momentos de fraternidade, que proporcionavam alegria e intimidade para os jovens que faziam parte da Comunidade. Em janeiro, Dom Marcelo em conversa com Andrei pediu que ele escrevesse sua história, a próprio punho, que ele gostaria de levar até ao PAPA, e assim foi feito. Andrei escreveu e entregou ao Dom Marcelo. Um mês depois o Vaticano enviou uma carta para casa do nosso Fundador, onde o assessor pessoal do PAPA agradecia a carta dizendo que o Santo Padre havia gostado muito do que leu. Andrei buscou Dom Marcelo para mostrar-lhe e ele disse que quando entregou a PAPA a carta, o Santo Padre abriu e imediatamente começou a ler, o que logo fez com que o Dom Marcelo dissesse ao Santo Padre que ele poderia ler depois, já que aquela audiência duraria apenas 15 minutos. Então João Paulo II disse: “Não! Lerei agora porque eu quero que você diga a esse jovem que o PAPA leu a sua carta”. Em novembro do mesmo ano, o Senhor deu a graça ao nosso fundador de entregar a Comunidade nas mãos de São João Paulo II. Dom Marcelo, como grande pai de nossa Comunidade, levou nosso fundador até os pés do sucessor de Pedro, e lá foi apresentada a nossa vocação ao Papa, e Andrei entregou nossa vida e missão como dom para a Igreja. Quando se ajoelharam para se apresentar ao PAPA, Dom Marcelo disse: “Santo Padre, este aqui é aquele jovem da carta que eu lhe entreguei”. E o PAPA disse: “Andrei?!” Conta o nosso fundador que diante daquela lembrança, ele não sabia mais expressar nada, ele apenas olhava para aquele homem santo e contemplava como se de fato estivesse desconectado do mundo, era o que chamamos de “estupor do ser”; ali nosso fundador fez uma grande experiência sensível da ternura de Deus. Na ocasião, ainda, o Papa deu-lhe um terço como presente: era João recebendo Nossa Senhora em seus braços.

A PRIMEIRA GRANDE CRISE

Dizem os estudiosos da vida consagrada que todos os institutos chamados a esse modo de vida passam por pelo menos três grandes crises. Chegou, então, a primeira grande crise da Comunidade, no ano de 2005. Este ano marcou nossa história para sempre, pois com a crise aconteceu a saída de muitos irmãos, inclusive nosso fundador, que não aguentou as situações as quais foi submetido e se afastou para um tempo ‘sabático’, porque não conseguiu emocionalmente ficar a frente da obra. Nessa época, ele tinha 24 anos. Precisávamos aprender a ser pequenos para que o Senhor pudesse crescer em nós. Mas Deus não nos deixou sozinhos; o Espírito Santo veio em auxílio à nossa fraqueza e nos deu forças para não desistir. Foram momentos de muita dor e sofrimento. Mas nosso Carisma é tão forte que mesmo com o afastamento do Fundador, a Comunidade não acabou. Mesmo estando aparentemente dissolvida, sem saber qual caminho trilhar, a graça do Carisma a sustentou, juntamente com as orações da nossa co-fundadora, Lúcia, que permaneceu ao nosso lado durante todo o tempo do afastamento de Andrei. Neste momento Deus nos deu a maior de todas as certezas que precisávamos: “O Carisma, quando é autêntico, é maior do que todos nós e é verdadeiro”. Essa verdade ressoou nos nossos ouvidos e o principal sinal foi que, depois de um ano e meio de sofrimento, veio o reerguimento da Comunidade, com o retorno nosso fundador, em dezembro de 2006.

A SEGUNDA CRISE

Os anos seguintes, até o ano de 2010, foram de muitas graças e aprendizado para nós. Muitas promessas de Deus estavam se cumprindo, e ao mesmo tempo, o Senhor realizava uma grande poda na Comunidade, nos ensinando que só deveria permanecer nela aqueles que tivessem verdadeiramente o Carisma, e que vivessem em plena comunhão com o Fundador e com o que ele anunciava acerca da vocação. Isso novamente levou muitas pessoas a desistirem, a questionarem, a terem dificuldade em viver aquilo que a fundação estava propondo, fazendo com que Andrei decidisse fechar a Comunidade para novas vocações e, como dissemos na época, levantar acampamento. Quando o profeta Moisés não sabia para onde ir no deserto, ele levantava acampamento e só saía quando Deus o direcionava novamente. Assim o fizemos! Esperamos bastante tempo, nos reunindo em oração e realizando retiros bimestrais para partilha de vida; este tempo durou até o ano de 2013.

A JMJ E O TEMPO DE DAR PASSOS FIRMES

Existe uma profecia feita no início da Comunidade, quando éramos apenas entusiasmo e imaturidade, que dizia:

“A casa da Comunidade torna-se a morada do Senhor, Onde Ele nos revela, de diferentes formas, seu imenso amor. Diz que o tempo é peça importante e deve ser respeitado. Muitas vezes é necessário parar, recuar um passo ou dois, para que daí a um tempo se possa dar passos mais firmes, firmes a ponto de deixar-se guiar totalmente pelo amor. E nas horas de silêncio abraçar à Maria. O Senhor nos apresenta Sua morada, porque deseja que nós a conheçamos intimamente, e por consequência, conheçamos a nossa morada. Devemos ser, em Deus, superfícies polidas de onde Ele será refletido a todos”.

Essa profecia ainda hoje repercute e nos faz meditar e rezar, porque entendemos que ela ainda está em andamento. Mas para este momento, percebemos que uma parte dela já se cumpriu: “Muitas vezes é necessário parar, recuar um passo ou dois, para que daí a um tempo se possa dar passos mais firmes…” Paramos, recuamos, não apenas um passo mas os dois passos mencionados, e na JMJ de 2013, o Senhor nos levou aos passos mais firmes que foram profetizados. Durante a vigília dos jovens com o PAPA, na praia de Copacabana, Andrei observava o Co-fundador da Comunidade Católica Nova Berith, José Costa Filho, enquanto ele rezava a oração litúrgica das horas com os membros da comunidade dele que lá estavam presentes; neste momento o Senhor ‘gritou’ em seu coração dizendo: “Onde estão os que te confiei? Onde estão os que te confiei?” Andrei olhou para um lado e para o outro, e não viu ninguém daqueles a quem Deus lhe havia confiado; pensou onde poderiam estar, e também não sabia onde estavam. Naquele momento ele caiu em prantos e parecia que escamas caíram dos seus olhos. Ele agora sabia. Sabia que precisava ser de fato um pastor, um bom pastor, aquele que era capaz de dar a própria vida pelas suas ovelhas. Quando voltou da JMJ, nosso fundador reuniu todos que ainda estavam acampados e fez um grande retiro de partilha e efusão do Espírito Santo, para compartilhar tudo que ardia em seu coração. Ele convidou todos a refazerem seu processo vocacional tendo ele como o promotor vocacional; inclusive foi um ano de encontros tão intensos que até hoje é lembrado como o ano em que “fizemos o vocacional com o fundador”.

A DESCOBERTA DA TERNURA

Com esse marco da JMJ, que providentemente aconteceu nos 10 anos de vida da Comunidade, tudo mudou, literalmente. O Senhor foi nos revelando o modo específico com o qual desempenharíamos nossa missão de formar o povo de Deus espiritualmente, humanamente e intelectualmente na doutrina Católica Apostólica Romana: por meio de experiências de oração e formação de finais de semana, sempre com a Adoração ao Santíssimo Sacramento sendo protagonista, e inseridos numa vida fraterna que é o cerne de nossa evangelização. A resposta a esse método de evangelização tem ecoado de modo muito forte, atingindo cidades bem distantes da nossa Casa Mãe. Mas nos últimos dois anos o Senhor começou a iluminar o Carisma da Comunidade tornando clara a linha mestra da vocação. Tudo começou com Rebecca Athayde, Consagrada da Comunidade que, em um determinado momento, comentou com o fundador que não poderia ser coincidência que os dois ícones ortodoxos que a Comunidade venerava tivessem a palavra ‘ternura’ como título da imagem. Eram: O ícone da Ternura (o discípulo amado reclinado sobre o peito de Jesus) e o ícone da Mãe da Ternura (a “Virgem de Vladimir”). Tomado por esse questionamento, Andrei começou a aprofundar-se no estudo da ternura e descobriu, por providência divina, duas grandes graças: a primeira foi um livro chamado “A teologia da ternura” que tem a cada dia revelado uma riqueza profunda quanto a esse mistério do Cristo que é a própria ternura de Deus. Segundo o autor, o ápice do amor de ternura acontece na entrega de Jesus na cruz; a segunda diz respeito ao Ícone da Ternura, nele há uma inscrição em francês que, originalmente, Dom Marcelo traduziu como: ‘Trago-te a mim com Ternura’; Um grande amigo da Obra Lumen de Evangelização, Diego Andrade, em uma partilha apresentou para Andrei um texto interpretativo do ícone da Ternura que dizia que aquela passagem era o versículo 21 do capítulo 2 do livro de Oséias. Nossa! Que mistério é esse que nos foi dado? Tudo começou com uma palavra de Oséias e hoje se fechava com uma palavra do mesmo profeta que, diga-se de passagem, já estava desde o início no ícone do ‘mistério Cristológico’. Descobrimos que esse era o profeta da ternura. Foi por meio da ternura que ele conseguiu amar, se entregar, atrair e se unir a sua mulher, que havia se deixado seduzir por outros caminhos. É assim que o Senhor explicava ao profeta que era o Seu amor por nós, o seu povo: um amor de Ternura. Pois é, caríssimos irmãos, quando uma obra é autêntica tudo se faz numa perfeita ligação e conexão que vai se revelando ao longo da sua história. Hoje, compreendemos que a Ternura é o cerne da nossa vocação, é ela que orienta tudo, que direciona tudo, que rege tudo aquilo que Deus quer de nós. Ela estava presente no início de tudo desde o fato de que os laços de amizade foram, no início, aquilo que uniu aqueles jovens para desejarem ser Fraterno Amor; depois apresentou-se na experiência do fundador de sentir-se reclinado sobre o peito de Jesus, que o levou a encontrar o ícone que continha a sentença de que o Senhor nos atraía para Ele com ternura (Os 2, 21), além do ícone da Mãe da Ternura; em seguida, uma palavra fundante de profunda ternura: Eu os lacei com laços de amizade, isto é, ternura (no livro da Teologia da Ternura aprendemos que o rosto visível da ternura é a amizade) e os amarrei com cordas de Amor; depois se apresentou no pacto vocacional de dar a vida pelos amigos e no versículo 13 do capítulo 15 do evangelho de São João, pois é na entrega da cruz que está o ápice da ternura. Tudo está conectado, intimamente conectado. Fomos encontrados pela bela, profunda e íntima ternura de Deus.

E HOJE

Enfim, novos membros entraram, vários encontros aconteceram. Hoje o Senhor tem caminhado conosco e nos guiado rumo à “terra prometida”. Comemoraremos este ano os 15 anos da Comunidade; os 15 anos do início do anúncio desse carisma presente no coração de Deus, provado pelo fogo, e que agora, com mais têmpera e parresia, anuncia que: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13). O Senhor nos convida a um “novo sim”, a uma nova experiência de acolhimento, de alegria e de intimidade, nos moldes da Ternura, para dizermos que O amamos e que o zelo por Sua casa e por sua causa nos consumirá.